Afinal, o que está acontecendo na Ucrânia?

Geral > ArtigosPor: Pallas em 03 Mar, 2014 - 15:04
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Como já é sabido por muitos, a situação da Ucrânia está ficando cada vez mais tensa. Mas afinal, o que está acontecendo? Essa situação pode, de alguma forma, abalar a relativa estabilidade política em que vivemos hoje? Vamos por etapas.

Um país dividido

A Ucrânia é um país divido. O oeste do país carrega consigo uma aversão aos russos e quer que os mesmos retirem a sua presença da Ucrânia o quanto antes, e em todos os sentidos. Em contraponto, as regiões mais situadas ao leste e ao sul do país identificam-se com os russos e gostariam de manter a presença dos mesmos na região. Observe o mapa:

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Os protestos

A atual crise que está havendo na Ucrânia começou após o presidente Víktor Yanukóvych recusar um acordo de aproximação com a União Europeia em troca de outra proposta oferecida pelo governo russo, que reduziria o preço do gás e daria mais privilégios comerciais à Ucrânia. A decisão do presidente ucraniano foi a gota d’água para os habitantes do oeste do país, que iniciaram uma intensa mobilização pela deposição do presidente e pela instauração de um governo favorável às suas pretensões. O problema é que os habitantes favoráveis ao presidente e favoráveis às relações privilegiadas com a Rússia não fizeram parte dessas manifestações, ou seja, apenas uma parte da população foi favorável à queda do presidente ucraniano.

Como se já não fosse suficientemente complicado, ainda há outros fatores que agravam ainda mais essa situação. Estão presentes, no oeste da Ucrânia, grupos de extrema-direita (alguns adeptos a movimentos neonazistas e fascistas) que também eram favoráveis à derrubada do presidente ucraniano e que chegaram, inclusive, a fazer uso de armas de fogo para combater as forças do governo, o contribuiu para as dezenas de pessoas que foram mortas ao final dos protestos (o que não reduz a responsabilidade do governo ucraniano pelas mortes de civis no meio dos combates). Dadas as condições (que ofereciam risco concreto à vida dos governantes), não haviam muitas alternativas para o então presidente Víktor Yanukóvych, sendo forçado a fugir do país, rumo à Rússia.

A rixa entre o ocidente e a Rússia

A crise na Ucrânia não se resume ao atrito entre os revoltosos e os simpatizantes ao governo e à presença russa na região. Há uma disputa se intensificando entre os governos ocidentais e o governo russo, que estão lutando entre si para defender os seus interesses políticos e econômicos.

Os Estados Unidos querem reduzir ao máximo a presença russa (econômica, política e militar) na Europa a fim de minimizar as chances de que uma oposição (no caso, aos seus acordos comerciais e militares estabelecidos com a União Europeia) ganhe força e consiga abocanhar alguns países do bloco europeu que atualmente se encontram em uma crise profunda, agravada pelos efeitos dos duros pacotes de austeridade impostos pela União Europeia (na prática, pela Alemanha...). É possível ver o descontentamento ocidental com as atitudes do governo russo ao olhar para as diversas advertências (por mais hipócritas que algumas sejam) feitas pelo governo estadunidense, pela ONU e pelos países do bloco europeu, tudo sem contar o extenso apoio que a mídia ocidental vem provendo aos governos do ocidente.

O governo russo, por sua vez, pretende reconquistar o seu espaço e fazer com que seus interesses voltem a ter relevância no cenário geopolítico internacional. A crise em questão não é o único sinal dessa ambição russa, afinal, não podemos nos esquecer de que foi ela quem cedeu o asilo provisório para Edward Snowden, que vem revelando informações detalhadas a respeito das práticas da agência de espionagem NSA e de suas parceiras ao redor do mundo. No caso da Ucrânia, a Rússia pretende continuar administrando as tubulações de gás que passam pelo país, assim como deseja manter as suas bases militares ali instaladas. A Rússia já se mostrou disposta a comandar uma invasão para combater as forças opositoras que desestabilizaram o governo local, forças que já falam em empreender uma guerra contra a Rússia, caso necessário.

E agora, o que pode acontecer?

Até o momento em que escrevo o artigo, as tensões continuam aumentando e não está certo se haverá um conflito armado entre as forças russas e ucranianas. O presidente Vladimir Putin já recebeu a autorização do parlamento para iniciar uma intervenção militar na Ucrânia, assim como já deslocou tropas (especula-se que cerca de 15 mil soldados), aviões e helicópteros (que invadiram o espaço aéreo ucraniano, visto que ele se encontrava fechado) para a sua base na região da Crimeia, que já está tomada pelo exército russo. Os habitantes da Crimeia (cerca de 60% é de origem russa), por sua vez, apoiam uma possível intervenção russa, assim como o leste do país.

Está claro que a Ucrânia se encontra dividida. Seria o separatismo a melhor solução para apaziguar os ânimos na região? Pessoalmente falando, acredito que sim. Uma divisão em setores ocidental e oriental poderia evitar uma série de conflitos (militares, civis e até mesmo étnicos), que teriam potencial mais que suficiente para ceifar a vida de milhares de pessoas. O problema é que a Rússia não parece estar muito interessada nessa possibilidade, nem ela e nem os governos ocidentais, que torcem para que a Ucrânia corte, enfim, suas relações privilegiadas com o governo russo por razões já abordadas nesse texto.

Aos que temem a possibilidade de termos um novo conflito em escala mundial, digo a estes que podem ficar tranquilos. Um conflito entre o ocidente e o oriente não seria vantajoso para nenhum dos lados, pois isso geraria uma quantidade muito maior de malefícios (destruição, mortes, disputas imperialistas de resultado incerto, rompimento de acordos comerciais...) do que de benefícios. O máximo que a crise ucraniana pode gerar é um aumento na frequência de situações que gerem tensões entre o ocidente e oriente, mas nada que vá levar os dois lados ao conflito armado.

Considerações finais

Como já foi dito, o rumo que as coisas vão tomar é incerto. Podemos estar nos momentos que antecedem uma guerra russo-ucraniana (o que geraria um desastre humanitário na região), assim como podemos estar prestes a ver as coisas se acalmarem e terminarem em uma resolução pacífica. O fato é que estamos diante de um acontecimento que pode ganhar importância significativa no contexto histórico, além de ser um capítulo da história por si só. Sendo assim, devemos sim olhar para a crise ucraniana de forma mais crítica e atenciosa.

A imprensa ocidental faz e fará de tudo para colocar os governos ocidentais em uma posição mais coerente com os valores democráticos e humanitários, e devemos atentar a isso para não adquirirmos uma versão distorcida dos acontecimentos. No momento, por mais que se diga que a Rússia está violando uma série de acordos internacionais ao ameaçar invadir a Ucrânia (o que deve ser visto com cautela, afinal há uma parcela significativa da população que é a favor de uma movimentação russa na região, sendo que uma parcela inclusive tem origens russas), tudo se resume a um conflito de interesses e, até o momento, não devemos demonizar ou vangloriar totalmente nenhum dos lados. O mais correto a se fazer é ter cautela e procurar por fontes variadas e opostas para se chegar a uma conclusão.

Enfim, se haverá ou não uma invasão, se haverá ou não uma separação da Ucrânia, se as tensões entre ocidente e oriente vão ou não aumentar... não se sabe. Essas e outras repostas só o tempo pode nos prover.

Texto escrito por mim feito especialmente para a Tribo Gamer.

Fontes:
http://jornalggn.com.br/
http://www.terra.com.br/portal/
http://www.cartamaior.com.br/
http://g1.globo.com/

Fonte: Tribogamer | 113 Comentários | 27849 Visualizações | +54

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Comentários

Negrito Itálico Underline Smiles
1000
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Ale100PreCoxa | 07/03/2014 (22:11)
todos falam da europa, EUA, que lá é mais ****, que lá vc compra tudo que vc precisa pra ser um gamer por 1000lão, que lá eh mais barato as coisas, que lá o povo é mais camarada, mas se num belo dia um russo falando 'aojmaofjzsçdfcasedfçoiasdajdçf' resolve t dar um balaço na cara pk vc ta jogando em russo e não em ucraniano??? gente, TODOS os lugares tem a sua coisa errada, PRINCIPALMENTE os países que a russía já mexeu, vcs n viram na eurocopa, os polonês se matando na *****da por míseros simbolos soviéticas do passado, pk?? pk é a história, foi o que houve por lá, na batalha de varsóvia... assim como a ucrania, a república tcheca, a eslováquia, bósnia e outros... assim como os USA que nunca estarão em paz com os caras lá da al-qaeda e do oriente medio, a alemanha que tem rivalidades em vários lugares da europa, até a coréia do norte tá louco o bagulho... então, PT, dilma, lula, copa do mundo, ronaldo, CBF, inflação, mensalão, corruptos, n vai colocar a nossa vida em risco...
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leisem | 07/03/2014 (18:57)
belíssimo artigo , parabéns
Acton Lobo | 06/03/2014 (18:02)
Muito bom o artigo!
claysom | 05/03/2014 (03:46)
Cara ****-se EUA, ****-se URSS, o importante é oq o povo quer, faz uma votação e resolve isso. pra q guerra ? todo mundo sabe que se houver algum conflito armado entre Russia e Estados Unidos vão ser incontáveis mortes isso se não houver uso de bombas nuclear. Guerra não é a resposta pra tudo, pessoas inteligentes não agem assim, o ser humano não é descartável é a coisa mais perfeita do mundo.
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Rafaelxs | 05/03/2014 (02:48)
Se a Russia controlar a Ucrania, penso eu que parará por ai, pois o EUA pode ficar queto na tomada da Ucrania, mas não aceitara a Russia marchar a oeste, assim como a UE não aceitara. E o que a Russia ganha com isso? E em nenhum momento a Russia falou em invadir outros paises, somente quer defender os cidadãos russos e seus interesses na ucrania. Mesmo que o Putin seja doido, ele não é burro e não vejo beneficio nenhum da Russia em começar a 3ª guerra mundial, o que com certeza irá acontecer se ela marchar a oeste. Ainda aposto (e torço e MUITO) para que seja somente um conflito interno e que a Russia, mesmo que tome a Ucrania (o que tambem acho improvavel) não irá tentar invadir outro pais ou declarar guerra a outro pais. Por mim a solução mais facil é dividir a Ucrania em 2 paises, porém tambem podem chegar a um acordo.
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Rafaelxs | 05/03/2014 (02:43)
SillentDeath, vamos por partes:
1º Sim a Ucrania é um lugar estrategico economico dos russos e mesmo se a russia invadir total a Ucrania, não creio que o EUA entrará no meio, pois não tem beneficio pra ele. Como já foi dito querendo ou não o EUA depende da Russia e não irá criar mais dividas, só pra enviar suas tropas pro outro lado do mundo sendo que nem a UE esta intervindo militarmente. Não se pode mais comparar tempo feudal com guerra atual, guerras atuais são muito caras, não é simples fazer um bloqueio como Napoleão tentou fazer, na verdade, acho que é impossivel um bloqueio da certo. Concordo quando você diz que pode-se ter uma guerra fria 2.0, por assim dizer, mas guerra direta entre Russia x EUA acho bastante dificil, pelo menos por agora, devido as dividas dos tilhoes de dolares que o EUA gastou nas ultimas guerras, sem beneficio que cubra o gasto, nem a propria população não vai apoiar sem falar na China propensa a se aliar a Russia, consequentemente a Coreia do Norte.

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SillentDeath | 05/03/2014 (01:30)
Se a Russia controlar a Ucrânia vai ser mais fácil de se expandir para o oeste, mas se os EUA conseguir apoiar e tornar a Ucrânia independente da Russia, a coisa vai ficar feia de ambos os lados. Sempre vai existir essa rivalidade até o ponto de explodir algo. A UE vai se ferrar nisso por conta que vai ser novamente o palco de uma guerra. Se receber os EUA, viram inimigos da Russia, e se não receberem o apoio dos EUA, ai a ***** fica séria com a Russia vindo de lá pra cá.

Eu ja estou preparando meus bolsos para apostar nas bolsas chinesas, que com certeza vai ser de onde vai sair o material barato para reconstruir a Europa em caso de guerra.

Mas pelo que vi nos últimos comentários, estão achando que não se passa de um conflito interno, e eu também não duvido da hipótese de que os próprios russos e norte americanos estejam financiando "brigas" para moverem a economia. Oq realmente acham disso? vai ter ou não uma guerra pela frente?

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SillentDeath | 05/03/2014 (01:19)
Poh a Tribo Gamer ta de nota 10 tanto em matéria como em debates. Passei mais de uma hora lendo os comentarios abaixo, mas valeu bastante à pena, viajei uns dias pro interior e fiquei desatualizado de tudo, to no "F5" agora graças à galera daqui que por meio de debates explicam tudo nos detalhes.

Mas em relação à guerra, não duvido que aconteça algo maior. Digamos que a Ucrânia é um ponto de negocio forte para a Russia por conta do gás e pra que melhor do que tomar o poder do seu ponto de negocio né? E como os EUA não são bestas, não querem que a Russia tenham lucro, e pra enfraquecer qualquer local de fora pra dentro, é só cortar as fontes de lucro. Como faziam no tempo feudal, que cavalarias cercavam castelos e esperavam as adversários enfraquecerem.

É bem provavel que essa guerra interna venha lembrar os tempos da guerra fria, em que a Russia e os EUA ficavam financiando guerras menores em troca de controles politicos e militares em pontos estratégicos...

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Rafaelxs | 05/03/2014 (00:41)
Acredito que o EUA irá ficar queto na dele, pois essas ultimas guerras deixou o pais lotado de dividas, sem falar na crise. Outro ponto que deverá manter o EUA queto, é o fator CHINA, que se a Russia pressionar, irá se aliar a ela. Sem contar, logicamente, que não tem motivos pro EUA entrar, a briga não é dele, vai comprar briga dos outros só pra se afundar mais em dividas?? Não há lucros, beneficios e nem nada alem de prejuizos e mais dividas pro EUA nesse conflito, guerras modernas sao caras e o EUA DEPENDE da Europa pra movimentar sua economia. Como o vbmvagner disse, é capaz de acontecer uma guerra entre elas no futuro SIM, porém pelo visto "logico" não há motivos pro EUA entrar nisso, afinal ele gastou TRILHOES em guerra contras paises com forças armadas incoparaveis a da Russia e China. Imagina o gasto que teria pra enfrentar Russia e China? simplesmente não vale a pena financei
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Rafaelxs | 05/03/2014 (00:09)
Alias 2 notas:

1ª Fahtts, Cara, por brasileiros como voce que o pais ta na ***** assim. Só pode ser funkeiro. Alienado de *****.

2ª Não imaginem na felicidade que estou de ver uma discussão tão grande, tão cheia em conhecimentos, de argumentos validos como esta acontecendo aqui. Só deixo meus parabens ao todos envolvidos nessa discussão (tirando o fahtts, logico) pois essa não é a 1ª e nem 2ª vez que vejo isso, principalmente ao Sophos que sempre vejos nessas situações de discussões e sempre mantem o nivel elevado da conversa.

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vbmvagner | 04/03/2014 (21:55)
Sim eles usam o futebol como arma politica... induzem os jovens a pensar como eles por meio do esporte. Você é jovem e entra pra uma torcida organizada daqui a pouco se vê cercado desse tipo de gente, muitos caem no papo os que não caem são induzidos pela força. Acho que usaram as manifestações também.

Já vi isso acontecer com meus próprios olhos, nazis se arrastando pra dentro de uma subcultura: quando andava de skate já fui abordado por boneheads pelo fato de eu ser branco, me falaram de "punks" que também eram nazi e queriam que eu frequenta-se certas praças. Não duvido que bastaria um encontro com esses senhores para que eu fica-se atolado até o pescoço.

Segundo alguns sites havia hooligans antifa nas manifestações e Black Blocs também.De qualquer forma parte do povo talvez fique "agradecido" pelo apoio e realmente abra precedentes para um estado neofascista, se não bem esses desgraçados já botaram o presidente pra correr talvez forcem uma ditadura.

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sophos_nsm | 04/03/2014 (21:41)
eu só discordo qto ao poder do partido nas manifestações. há umas duas semanas (antes do presidente eleito ser derrubado) vi no spigel que haviam tres partidos a frente das manifestações, mas enquanto dois tentavam um acordo o que arrefeceria as manifestações, foi o neonazista svoboda que manteve as manifestações com palavras de ordem anti-semita, homossexuais, nacionalismo, etc.
Por isso eu vejo que ele saiu como grande vencedor nas manifestações, principamente pq tem boa representação politica (que tenderá a crescer) e como voce mostrou poder paramilitar. Mais que isso, não tem escrupulos para cometer atentados terroristas se isso trouxer poder, coisas que os demais partidos não fariam.